Jazz com Jazz:
Experimentando a Dança segundo matrizes do Jazz Música e do Jazz Dança
VILAÇA, Aline Serzedello¹
Palavras- chave: Jazz Dança, Jazz Música, Oficina Corporal.
Resumo
O presente artigo tem por objetivo apresentar a construção metodológica da oficina de dança Jazz com Jazz com base no estudo bibliográfico e áudio/ visual do grupo de estudos do Projeto de pesquisa e extensão homônimo. Projeto que desde 2008 na sede do Curso de Dança da Universidade Federal de Viçosa vem pesquisando, refletindo e questionando possibilidades de propor um estudo teórico/prático em Dança que apresenta como principal estimulo e inspiração a história sócio- cultural e os personagens do Jazz Dança e Música. De maneira inovadora a oficina traz elementos técnicos do Jazz Dança, em três movimentos: Jazz Étnico, Jazz Lírico / Moderno e Jazz Musical, contextualizando suas características, traçando discussões e paralelos com as nuances de vários estilos de Jazz Música. Proporcionando assim, um terceiro momento de criação, experimentação e aprofundamento técnico em Dança envolto pelas matrizes do Jazz Música e Dança.
_______________________
¹Graduanda em Dança pela UFV. Editora assistente da Revista digital Contemporâneos. Colunistas da Revista digital Contemporartes. Estagiária responsável e idealizadora do Projeto de Pesquisa Jazz com Jazz. Intérprete- pesquisadora do Grupo Gengibre.
Quais são, portanto, as realizações musicais do jazz? Sua maior e talvez a sua única realização real é existir: uma música que esgotou as qualidades da música folk em um mundo projetado para expatriá-las (HOBSBAWM, p. 187)
♫ Nos Clamores do Tambor
A Oficina Jazz com Jazz, idealizada e coordenada por Aline Serzedello Vilaça, discente do 7º período do Curso de Dança da Universidade Federal de Viçosa. Atualmente orientado pela discente Andrea Bergallo Snizek, a oficina começou a ser formulada no final de 2008, junto da elaboração do Projeto de Pesquisa e Extensão Jazz com Jazz, que na época era orientado pela professora Carla Ávila, hoje discente da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.
Em seu processo de construção, recriação, adaptação, pesquisa e estudos em Jazz, a oficina já foi ministrada no Curso de Educação Física da UNESP de Rio Claro, no ENEARTE realizado em Salvador- BA no ano de 2009, e este ano no ENEARTE realizado em Ouro Preto- MG.
O projeto em questão tem como objetivo conhecer melhor a história do Jazz tanto Dança quanto Música, para entender o processo histórico- político- social e étnico desta manifestação popular, (poderíamos considerar o plural pensando em sua multiplicidade) construída por uma população violentamente segregada, que a partir de seu cantar e dançar legitimou seu fazer cultural, lapidou- o até agregar o status de Arte, até alcançar posição de igualdade entre as artes mais elaboradas e principalmente fortaleceu a identidade cultural, artística e étnica do negro norte- americano.
Transformando sua Arte, o Jazz, não apenas em expressão visceral da dor, da melancolia, da saudade, tornado- o ato público da indignação da convenção racista extrema, da liberdade sensual, da transgressão permitida nos sujos “night clubs”, expressão da união da descendência africana com a européia. O Jazz transformou- se em elemento identitário, em sujeito de luta, bandeira de protesto de toda uma população. Abriu espaço para o negro- norte- americano apoderar- se de seu lugar em sociedade.
...aspecto do jazz que o acompanha do nascimento aos dias de hoje é o fato de ser considerado por seus autores como música de protesto. Protesto contra discriminação racial, social, espiritual,; protesto contra clichês da moral burguesa, contra a massificação do mundo e despersonalização do indivíduo, etc. [...] apesar de nascer, muitas vezes motivada por um sentimento dessa natureza, ela atingiu uma universalidade que poucas outras manifestações artísticas conheceram: o jazz é feito hoje por músicos de todas as raças, cores, ou sistemas políticos. (BERENDT, s/d, p. 153)
O jazz representava a
[...] tensão entre as raças. A sua música seria tão boa quanto a dos brancos, até mesmo em termos de música de arte, porém fundamentada na cultura negra. Elas também expressavam, porém, o ressentimento e a insegurança dos negros que tinham tentado a velha receita da igualdade. (HOBSBAWM, p. 118)
Claro, que também caiu nas “graças” da indústria cultural, e um bom exemplo é o fenômeno, Teatro Musical, e diferente do que muitos acreditam esta influência capitalista e branca, musicalmente e comercialmente se deu desde seu princípio.
Neste artigo infelizmente não poderemos detalhar os pormenores, nem da história do Jazz, tão pouco dos problemas que identifico na pesquisa, como: banalização, preconceito, sensualidade exacerbada, distanciamento Dança e Música. Mas ao explicar rapidamente os elementos que compõem os três movimentos da Oficina: Jazz Étnico, Jazz Lírico/ Moderno e Jazz Musical, pretendemos contar um pouco dos argumentos históricos e estilísticos que dão base para a metodologia da oficina.
Nos Clamores do Tambor, é o título dado ao primeiro movimento da oficina, neste primeiro momento trazemos toda dificuldade vivenciada na exploração abusiva do trabalho, nas colheitas, na melancolia dos cantos. Musicalmente trazemos a primeira parte da história do Jazz, ou seja, tambores, Work Songs (canções de trabalho), Spirituals (remete a tempos mais antigos antes de 1800, mas seu caráter negro se deu na segregação dos batistas negros entre 1865- 1880), Blues “uma expressão emotiva extraordinariamente intensa e sensível. [...] essencialmente expressionista” (HOBSBAWM, p 129)
Portanto, Nos Clamores do Tambor resgata a ancestralidade africana, para auxiliar no processo de inCorporAção do intérprete buscamos estímulos da memória escrava brasileira.
Alguns dos princípios de sua dança, bem como de sua postura e gestos, têm sua origem numa tradição africana que foi parcialmente preservada na América.[...]
Já na tradição africana, tanto os homens quanto as mulheres dançam com o traseiro. Além disso, uma das principais características da dança africana é a movimentação de diferentes partes do corpo de acordo com o ritmos diferentes na música. [...]
A dança africana é realizada com os pés plantados no chão, [...] os bailarinos africanos, em seus números de maior virtuosismo, tendem a se aproximar da terra. Eles “se abaixam” para demonstrar o máximo de respeito e para executar seus movimentos de significado mais profundo. (ROSE. 1990, p. 44- 45)
Corporalmente temos Katherine Dunham(considerada a mãe da Dança Negra nos EUA, coreógrafa e bailarina que ressaltamos seus estudos etnográficos que contribuíram para trazer as características étnicas para seu trabalho corporal). O espetáculo Revelations de Alvin Ailey. O musical Ainda. A ópera Porgy and Bess de George Gershwi. É interessante citar Hobsbawn quando o mesmo afirma sobre esta ópera que, “a melodia de Summertime é uma cópia literal, e sem dúvida não intencional, do spiritual Sometimes I Peel Like a Motherless Child”. (HOBSBAWM, p. 178), pois prova as conexões que estabelecemos entre África, Work Songs, Spirituals e Blues e a ligação dança e música.
- Características Corporais
1. Força
2. Tônus Muscular
3. Sofrimento
4. Dor
5. Resistência
6. Agressividade
7. Chão
[Raiz, Memória, Ancestralidade]
8. Improvisação
9. Fragmentação
10. Pergunta e Resposta (diálogo entre bailarinos e na instrumentação do corpo)
11. Dilatado [corpo] Gigante
12. Ataque [posição] sem sedução como de costume no Jazz Moderno, Lírico e Musical
13. Foco – olhos agressivos e preciso
14. Peso
♫ Explosão Virtuosa
Neste segundo movimento da oficina, trazemos para a oficina o momento em que o Jazz soma a expressividade espontânea produto do contexto de criação que partiu da necessidade, com a preocupação técnica.
Na música há o domínio da leitura de partituras, a sofisticação nas criações, nos arranjos e o desafio constante na interpretação. A dança começa a aderir movimentos técnicos do ballet clássico, há a busca do virtuosismo técnico na interpretação. A improvisação que já se constituía como uma importante característica agora é tecnicamente pensada.
[...] a improvisação, ou pelo menos uma margem ladeando a maioria das composições “escritas” em jazz, é e merece ser festejada, pois representa a constante e viva recriação da música, o arrebatamento e a inspiração dos músicos comunicados a nós. Quase não a dúvida de que o efeito mais poderoso do jazz está na comunicação da emoção humana de forma intensificada. (HOBSBAWM, p. 182)
Como referência corporal podemos citar Jack Cole (considerado pai do Jazz Dança), Alvin Ailey (importante coreógrafo negro- norte- americano, teve contato com grandes nomes da Dança Moderna norte- americana e sua cia Alvin Ailey American Dance Theater ainda está em constante atividade).
Lennie Dale, Matt Mattox, Jerome Robbins, também são referências corporais. Musicalmente usamos Jazz Tradicional, Cool Jazz, Modern Jazz, Fusion, R&B, Soul e Funk. Também usamos como referência o musical West Side Story (para exemplificar o Jazz Moderno) e Dancin´in the Darkness de Bob Fosse (para o Jazz Lírico).
- Características Corporais
1. Ballet Clássico
2. Centro
(onde emanam os movimentos)
3. Quadril
(onde irradiam movimentos)
4. Contração e Relaxamento
5. Explosão de movimento
6. Foco
7. Sensualidade no limite entre vulgar e ingênua
8. Rollings (cabeça e quadril)
9. Corpo Dilatado
10. Saltos
11. Giros
12. Flexibilidade
13. Pernas altas
14. Oposição de movimentos e de partes exploradas do corpo
15. Contrações
16. Torções
17. Corpo continua pulsar com voracidade, nem sempre agressiva, mas muito presente intenso.
Explosão Virtuosa é o momento que tentamos explorar tecnicamente os bailarinos, usamos o Jazz Moderno para trabalhar com velocidade e músicas mais sincopadas e o Jazz Lírico para suavizar a movimentação, mostrar finalização e lapidação de movimento com muito R&B e Jazz mais melódicos.
♫ Luzes on Broadway
É terceiro movimento da oficina, normalmente damos menos ênfase nesta última fatia da divisão da história do Jazz, devido à forte característica comercial dos musicais e de seu distanciamento da história social do Jazz, mas é importante citá-la, pois faz parte da linha evolutiva do Jazz.
Nosso principal estímulo corporal é a linha criativa do coreógrafo norte- americano Bob Fosse, grande nome do teatro musical das décadas de 60 e 70 com sucessos no cinema como Cabaré e O Show Deve Continuar. Podemos citar marcas coreográficas dele que nos inspiram como a sofisticação, minimalismo, postura corporal fragmentação entre outras.
- Características Corporais
1. Sapato de salto- uso constante da meia- ponta
2. Minimalismo
3. Mãos expressivas
4. Olhar sedutor e desafiador
5. Sensualidade elegante
6. Maioria dos movimentos no nível alto
7. Ataque
[posição] com mistério, Foco.
8. Pescoço extenso
9. Cabeça e pequenos acentos
10. Pés e pernas_ en dedans
11. Braços perto do corpo
12. Caminhadas elegantes
Por fim, sem poder contemplar a explicação teórica de cada elemento selecionado como característica básica do Jazz Dança, justificamos o nome da oficina e do projeto, não apenas pela nítida paixão por essa forma artística, mas por constatarmos que as características que permeiam a Dança também permeiam a Música, obviamente porque são resultado de um mesmo processo sócio- cultural.
Jazz Dança e Jazz Música nasceram um pelo outro.
Sendo assim, justificamos Jazz com Jazz, com o antropólogo norte- americano Eric Hobsbawm quando este afirma que
Uma coisa é clara. Enquanto o jazz, ele sempre estará ancorado em uma espécie de padrão estilístico por necessidade de se constituir uma música para se dançar. [...] Pelos últimos doze anos, mais ou menos, muito jazz não foi tocado para ser dançado, mas para ser ouvido, geralmente em salas de concertos e recitais. Porém, enquanto o jazz não for apenas música de recital, isto é, enquanto não for tocado exclusivamente para um público iniciado ou esnobe, enquanto for tocado em salões de bailes, teatros, nightclubs bem como em outros locais de concerto, alguns ouvintes também vão querer dançar, nem que seja nos corredores. E, enquanto existir demanda pelo jazz como música para se dançar, uma parte do jazz, de todos os estilos – antigo, período médio ou moderno- se adaptará a essa exigência. E isso não será difícil, pois é uma música destinada a fazer mexer o corpo das pessoas, a despeito de quaisquer outras conquistas mais elevadas que também tenha a seu crédito. (HOBSBAWM, p. 156) (grifo meu)
Assim, fica o convite, dancemos all That Jazz!!!
♫ Referência Bibliográfica
BERENDT, Joachim e. O Jazz do rag ao rock. Trad. Júlio Medaglia. Editora Perspectiva. 370p.
GRANDI, Ivan. Jazz Dance. In: Guia Escolas Dança 2008. Ano IV. Nº 04. São Paulo: dbeditora, 2008. 38p.
HOBSBAWM, Eric J. História Social do Jazz. Trad. Angela Noronha. Editora Paz e Terra. 6º ed.
♫ Bibliografia
BOUCIER, Paul. História da dança no ocidente. Trad. Marina Appenzeller. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 339p.
CALADO, Carlos. Coleção Folha: clássicos do Jazz. Nat King Cole. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2007. 64p.
CALADO, Carlos. Coleção Folha: clássicos do Jazz. Herbie Hancook. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2007. 64p.
COLLIER, James Lincoln. Louis Armstrong. Trad. Ibanez de Carvalho Filho. 2ª Ed. São Paulo: Globo, 1989.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13 ed.São Paulo: Editora Ática, 2003.
DUNCAN, Isadora. Minha vida. Trad. Gastão Cruls. 2ª Ed. Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 1938.
FARO, Antonio José. Pequena História da Dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986. 149p.
FEATHER, Leonard. The Passion for Jazz. New York: Horizon Press, 1980. 208p.
GRANDT, Gail. Technical manual and dictionary of chassical Ballet. 3º ed. New York: Dover Publications, Inc.
GUARATO, Rafael. Dança de Rua: Corpos para além do movimento (Uberlândia 1970- 2007). Uberlândia: EDUFU, 2008. 238P.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 13.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2000
LEIRIS, Michel. L´Afrique Fantôme apud Aprender Antropologia. p. 177- 178.
MINTZ, Sidney Wilfred; PRICE, Richard. O Nascimento da Cultura Afro- Americana: Uma perspectiva antropológica. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Pallas: Universidade Candido Mendes, 2003. 128p.
PORTINARI, Maribel. Nos passos da dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 295p.
ROSE, Phyllis. A Cleópatra do Jazz: Josephine Baker e seu tempo. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.
SHUKER, Nancy. Os grandes líderes: Martin Luther King. São Paulo: Nova Cultural, s/d. 91p.
THOMAS, Tony. The films of Gene Kelly Songs and Dance Man. The Citadel Press. Secaucus, N. J.
Bob Fosse. Disponível em: http://epipoca.uol.com.br/gente_detalhes.php?idg=1120 Acessado: 12 de outubro de 2008.
Katherine Dunham. Disponível em: http://www.biography.com/search/article.do?id=9177959 Acessado: 12/10/2008
Nenhum comentário:
Postar um comentário